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Vida Americana é um artigo semanal sobre a vida empresarial nos Estados Unidos, escrito de Seattle, na Costa Oeste norte-americana, cidade-sede da Boeing, Microsoft, Amazon e Starbucks, e cujo empresários estão se aproximando cada vez mais do Brasil a fim de diversificar sua pauta de exportações/importações. Aqui você ouve tendências, idéias inovadoras, start-ups de sucesso, comportamento, celebridades empresariais, fatos pitorescos e diplomacia empresarial. Vida Americana é uma das colunas mais lidas da Gazeta Mercantil, atingindo cerca de 400 mil leitores – a elite econômico-financeira brasileira – diariamente.

Já escolheu o homem (ou mulher) do ano?

homem_do_ano.jpgSeattle– Desde 1927 a história se repete: a revista Time, a mais influente do mundo, escolhe o homem (ou mulher) do ano. A tradição nasceu do acaso. Em 1927, como em todos os anos, havia falta de notícias entre o Natal e o Ano Novo. Parece que o mundo descansa nesta época. Sem assunto, e para remediar o fato de não terem colocado na capa o herói daquele ano, o aviador Charles Lindbergh, o primeiro homem a cruzar o Atlântico de teco-teco, a premiação começou.

Os editores da revista sempre recusaram-se a considerar a capa do Homem do Ano como um prêmio. O perfil é do homem, ou mulher, ou casal, ou grupo, ou idéia, ou lugar, ou máquina que, para “melhor ou pior modificou os eventos de determinado ano”. Adolf Hitler ganhou em 1939, como você, isto mesmo, você, ganhou no ano passado por mudar o mundo através da Internet. De uns tempos para cá você pode votar eletronicamente, mas quem dá palavra final são os editores da Time.

Para 2007, os candidatos principais são J. K. Rowling (primeiro lugar), a autora do Harry Potter, que continua estourando nas paradas, seguida pelo Prêmio Nobel da Paz, Al Gore, o candidato negro à Presidência Barack Obama, a secretária de Estado Condoleezza Rice e o encrenqueiro Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã. Continue lendo Já escolheu o homem (ou mulher) do ano?

O que há de errado com o Citi?

citi_group.jpgSeattle- A história do Citigroup, um conglomerado financeiro nascido em 1812 em Nova York, é uma sucessão de escândalos de tráfico de influência e brigas de diretores, mas nada calou mais fundo entre os acionistas do que o prejuízo de US$ 11 bilhões no terceiro quadrimestredeste ano, resultado não só da crise das hipotecas nos Estados Unidos, mas
também da pura – e grandiosa – incompetência da sua direção.

O grupo, uma espécie de quartel general do capitalismo, é a maior empresa em ativos do mundo (quase US$ 2 trilhões), ostentando em seu currículo a popularização dos caixas eletrônicos e a introdução do conceito full service financeiro. Agora vem se juntar ao clube dos sem-lucro de Wall Street: Bear Stearns (prejuízo de US$ 450 milhões), Morgan Stanley (US$ 3,7 bilhões) e Merrill Lynch (US$ 7,9 bilhões). Continue lendo O que há de errado com o Citi?

Deus está nos detalhes

mark_penn.jpgSeattle– Você sabia que, cada vez mais, jovens norte-americanos estão fazendo crochê? Que o judaísmo é a religião mais querida aqui? Que está havendo uma explosão de nascimento de pessoas canhotas? Que a população de solteironas nos Estados Unidos quase dobrou de 1970 a 2005? Que existem cerca de 30 milhões de pessoas tatuadas? Ou que um milhão de homens norte-americanos fizeram operação plástica em 2006? É um punhado de informação (ou cultura inútil) que a gente vê aqui e ali, e que até hoje não sabia que se tratava de uma microtendência, um termo inventado recentemente que está dando o que falar nos Estados Unidos.
Tudo começou quando o especialista em pesquisas Mark J. Penn, hoje CEO da Burson-Marsteller, uma das maiores empresas de relações públicas do mundo, trabalhava para o então presidente Bill Clinton na Casa Branca, em 1996. Ele começou a perceber um fenômeno: mulheres brancas, casadas, moradoras dos afluentes subúrbios norte-americanos, devotadas aos filhos, estavam se tornando, muito mais do que os maridos, uma força política expressiva. Um detalhe que passava desapercebido nas pesquisas. Continue lendo Deus está nos detalhes

Cortando a barba e os custos

james_kilts.jpgSeattle- Quando o inventor norte-americano King Camp Gillette inventou o aparelho de barbear com lâminas descartáveis, em 1901, transformou o até então perigoso e delicado ato de fazer a barba, restrito às barbearias e a alguns familiares de plantão, em um hábito tão popular feito escovar os dentes.
A jogada de mestre, no entanto, não estava na invenção em si, mas na possibilidade de vender um produto abaixo do custo, o aparelho de barbear, para fazer com que os consumidores pagassem mais pela lâmina, mantendo-os fiéis ao longo dos anos.
Este conceito, chamado aqui de loss leader, foi a mola mestra do sucesso não só da Gillette, vendida em 2005 à Procter & Gamble por US$ 54 bilhões de dólares, mas também de muitas marcas que atraem o consumidor através de produtos baratos, como a impressora à jato de tinta, para depois retê-los através dos caros cartuchos.
Warren Buffet, o segundo homem mais rico do mundo, investiu na Gillette por acreditar que jamais haverá um dia em que o homem não se levante, passe a mão na cara e sinta a necessidade de tirar aqueles pelos que significam, no mundo de hoje e com o perdão do “companheiro” Fidel, desleixo e falta de asseio pessoal.
Mas quando o CEO James Kilts chegou à empresa em 2001, o primeiro executivo de fora da corporação em mais de 70 anos, encontrou um negócio que tinha uma grande marca, mas que, por inatividade, estava perdendo a participação de mercado. Continue lendo Cortando a barba e os custos

Mulher é ruim para fazer conta?

danica_mckellar.jpgSeattle– Nada disso. Cada vez mais a ciência comprova que ser bom em matemática, ou no “alfabeto com o qual Deus construiu o Universo”, como dizia Galileu Galilei, independe do sexo.
Mas a atriz Danica McKellar, a doce Winnie Cooper do seriado Tempos Incríveis, exibido no Brasil pela Rede Cultura, a cada dia encanta os americanos com o livro “A Matemática Não é Chata”, escrito de princesa para princesas para convencê-las de que o reino dos números é também coisa de mulher.
McKellar, que já foi tão ruim em matemática como boa parte da humanidade, viveu tempos incríveis na sala de aula quando, de repente, dava branco na cabeça, o coração palpitava e rezava para que o sino do recreio acabasse com a tortura de uma, digamos, raiz quadrada.
Até que um professor apareceu e deu exemplos práticos de matemática no dia-a-dia para que ela aprendesse a lição. Foi a faísca para que explodisse sua genialidade numérica, a ponto de, mesmo com carreira de atriz, ter sido autora de um tal de Chayes-McKellar-Winn, um teorema impossível de descrever aqui, pois nem eu nem você, paciente leitor, entenderíamos bulhufas. Continue lendo Mulher é ruim para fazer conta?

Advogados a mil dólares por hora

william_neukom.jpgSeattle- A eleição na semana passada do advogado de Seattle William Neukom como presidente da poderosa American Bar Association, uma espécie de OAB dos Estados Unidos, está sendo vista aqui como o coroamento de uma profissão que, embora cercada de criticismo, está fazendo a fortuna de muita gente e hoje é uma das carreiras mais desejadas no mundo ocidental.
Gravata borboleta e cabelos grisalhos, o novo presidente da ABA, sócio do pai de Bill Gates (K&L Gates) e filantropo, fez fortuna trabalhando como advogado da Microsoft durante 25 anos. Neste quarto de século, construiu as trincheiras para que a empresa resistisse às acusações de monopólio, plágio ou qualquer destes petardos contra quem lidera (ou monopoliza) o mercado.
Com discurso tranqüilo e infalível de quem está ao lado da lei (vale à pena ver a posse na internet) Newkom não falou das fortunas que os advogados estão embolsando. Político, criticou as recentes leis que limitam a privacidade dos americanos e a demissão de nove procuradores que não rezavam na mesma cartilha republicana do presidente. Continue lendo Advogados a mil dólares por hora

Como conquistar o investidor americano – Parte 1

gringo_1.jpgSeattle – Atenção empresários, empreendedores, sonhadores e aventureiros. Mesmo com os mercados financeiros degringolando mundo afora, calcula-se que os Estados Unidos investirão este ano cerca de US$ 60 bilhões em novos negócios ou em projetos que precisam de um empurrãozinho para fazer sucesso.
Desde a bolha da Internet, no fim do século passado, nunca houve tanto dinheiro disponível para fazer um website que vai revolucionar a interação entre as pessoas, uma usina que vai transformar lixo em energia ou um remédio que vai curar os nossos males, entre outras idéias que, por vezes, podem torná-lo bilionário.
Os gringos, como vocês sabem, quando se lembram de nós, nos vêem como uma ilha longínqua e paradisíaca, abatida por violência e corrupção e presidida por um ex-operário.
Quem nos conhece mais de perto nos considera desorganizados, não confiáveis (chegar na hora, terno-e-gravata, planejar com antecedência etc.) e não entendem o português ou muito menos o inglês que pensamos que falamos. Em resumo, têm tolerância zero para desculpas esfarrapadas.
Portanto, antes de conquistar os corações (e os bolsos) dos investidores, aqui vão algumas recomendações para seu projeto brilhar no coração do capitalismo. Continue lendo Como conquistar o investidor americano – Parte 1

Produtos chineses? Não, obrigado

china_02.jpgEstá certo que um entre cada cinco seres humanos seja chinês, que precisa comer, se vestir, ganhar dinheiro e criar filhos. Mas é injusto que o progresso da China esteja sendo feito à custa da estagnação econômica e social em países pobres como o Brasil, México e outros que também possuem mão de obra iletrada, barata e disponível.
Os Estados Unidos ainda não se mexeram porque boa parte do seu débito, cerca de US$ 4,9 trilhões, está nas mãos dos chineses, que por não possuírem proteção do Estado poupam em média 45% do que ganham. E, também, porque podem rodar a maquininha de fazer dólar e são criativos para criarem novas necessidades e novos empregos, como se viu nos últimos anos com o advento da Internet.
Aqui, no entanto, está fazendo sucesso um livro da jornalista Sara Bongiorni, A Year Without “Made in China”: One Family’s True Life Adventure in the Global Economy, relato da experiência de uma família que ficou um ano sem consumir qualquer produto (ou ingrediente, ou peça ou qualquer coisa) chinês. Bongiorni não chegou a passar fome, mas de repente ficou sem cafeteira, sem televisor e sem muitas outras coisas porque simplesmente, como se sabe, a China virou a fábrica do mundo. Continue lendo Produtos chineses? Não, obrigado

Como demitir controladores de vôo

reagan.jpgSeattle – Há exatos 26 anos, o então presidente Ronald Reagan desceu aos jardins da Casa Branca para bater o martelo: se cerca de 13 mil dos 17,5 mil controladores de vôo do Professional Air Traffic Controllers Organization (PATCO) não voltassem ao trabalho em 48 horas, seriam demitidos sumariamente e expulsos para sempre do serviço público.
Dois dias depois, os controladores esperaram que o velho cowboy piscasse, mas o que ocorreu foi surpreendente. Reagan demitiu, com uma só canetada, todos os controladores grevistas e mudou para sempre a história da aviação comercial e do movimento sindical nos Estados Unidos.
O presidente, que segundo se dizia à época não conseguia mascar chiclete e andar ao mesmo tempo, mas tinha consciência de seu poder e sabia utilizá-lo, aproveitou-se de uma lei de 1955 que proibia greves entre funcionários públicos federais, sob pena de multa e um ano de cadeia, para fazer o que fez.
Muitos funcionários de outros setores, como carteiros, já haviam parado. Mas num setor estratégico, responsável pela segurança de milhões de passageiros lá no céu, não se concebia uma paralisação. Continue lendo Como demitir controladores de vôo

Um mórmon no poder

mitt.jpgSeattle, Washington – Rico, bonito, empresário de sucesso, pai e marido exemplar, sem antecedentes criminais (nem multa por velocidade), republicano e mórmon. O ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, 60 anos, o homem que salvou as Olimpíadas de Salt Lake City em 2002 e fez fortuna com a firma de investimentos Bain Capital, é um dos candidatos mais afluentes entre os republicanos para a sucessão de George Bush – a ponto de ter sido capa de praticamente todas as revistas de negócios desde que o ano começou.
Romney, no entanto, peca por ser mórmon. O país está cansado da mistura entre Igreja e Estado que os neoconservadores encabeçados por Bush promoveram nos últimos anos, a ponto de levarem o país a uma guerra fratricida e sem sentido no Iraque só para satisfazer ao complexo industrial militar. Os mórmons pertencem à religião que mais cresce nos Estados Unidos, embora seja mais conhecida entre outros credos por abrigar entre seus devotos os chamados casamentos múltiplos (um homem, às vezes com dezenas de esposas), especialmente em regiões remotas do país.
Em todos os debates que participa, Mitt é confrontado com perguntas sobre a influência da religião no poder, especialmente na tomada de decisões que apaixonam os Estados Unidos atualmente, como a liberação de fundos federais para a pesquisa de células-tronco, direito ao aborto, casamentos entre homossexuais e outras conquistas (ou atrasos, segundo os neoconservadores) da sociedade norte-americana no fim do século passado. Mitt, como bom político, escorrega-se dos petardos com a firmeza de um quiabo, mas no final do dia, como todos sabem, o que vale é uma boa administração. Continue lendo Um mórmon no poder