O primeiro bilhão a gente nunca esquece…

07/05/2007 11:56 AM em Vida Americana

O mundo já sabe que, a partir de agora, quem vai mandar no mundo são os chamados hedge funds, fundos de investimentos que ganham dinheiro (mas muito dinheiro) quando o mercado sobe, desce, fica à deriva ou simplesmente permanece inalterado. Para eles, perder não é uma alternativa.
Como um tsunami dos negócios, e com um patrimônio que somado chega a estonteantes US$ 2 trilhões, ou quatro vezes o PIB oficial brasileiro, eles estão comprando tudo que vêem pela frente, de montadoras de automóveis a cadeias de supermercados, de petrolíferas a empresas aéreas.
O que pouca gente sabe é quanto de dinheiro que os administradores destes fundos, que são fechados aos simples mortais, pouco regulados pelas autoridades e geralmente com endereços nas Ilhas Cayman ou nas Bahamas, ganham ao final de cada ano.
A publicação especializada Alpha Magazine encarregou-se na semana passada de revelar os números: James Simons, do Renaissance Technologies, um fundo de US$ 12 bilhões fechado a novos investidores há 14 anos, ganhou exatos US$ 1,7 bilhão em 2006.
Não precisa ser gênio para deduzir que Simons, um recluso e misterioso septuagenário muito popular no meio acadêmio por ser um criptoanalista, físico, matemático e filantropista, ganha cerca de 12 mil dólares por hora trabalhada, quando o salário mínimo por aqui não passa de cinco dólares.
De acordo com o Institutional Investor, James ganhou um pouco menos em 2005, apenas US$ 1,5 bilhão e, pior ainda, só US$ 670 milhões em 2004. Somados, ano a ano, estes proventos fazem dele o 64° homem mais rico dos Estados Unidos, na mensuração da Forbes.
Ele faz a alegria dos seus investidores com retornos acima de 35% ao ano, desde 1989, colocando os competidores, inclusive o lendário George Soros, no chinelo. James cobra as taxas regulares do mercado para administrar o fundo (em torno de 5%) , mas cobra taxa de sucesso de 44%, o que manda seu salário para níveis estratosférios.
Fumando, com um olhar de quem não precisa agradar ninguém (já perdeu dois filhos e tem ainda um autista diagnosticado aos seis anos), James deu sua primeira entrevista em uma década ao canal à cabo CNBC, e pareceu não muito preocupado em mostrar as intricadas fórmulas matemáticas que, com a ajuda de computadores e mais de 60 especialistas em adivinhar o futuro, usa para se enriquecer com os mercados futuros, swaps e derivativos em posições altamente alavancadas.
- O que eu tenho é muita sorte, resumiu ele.
James Simons não está sozinho nexta explosão salarial dos administradores dos fundos de hedge. Segundo o Alpha Magazine, existem outros como Ken Griffin (38 anos), da Cidadel Investments, com US$ 1,4 bilhão, Edward Lambert (você ainda vai ouvir muito este nome), da ESL Investiment, que ganhou US$ 1,3 bilhão, boa parte dos quais transformando a Sears, da qual é também chairman, numa decadente loja de departamentos que, contraditoriamente, é uma fonte inesgotável de lucros.
Há também o polêmico George Soros, ex-patrão da Armínio Fraga e inimigo número um do presidente George W. Bush (é um dos grandes financiadores do Partido Democrata), que ganhou US$ 950 milhões, Steven Cohen, da SAC Capital, como US$ 900 milhões, e outros menos importantes, como Carl Icahn, com US$ 600 milhões, que volta e meia aparece nas reuniões de diretoria das grandes empresas exigindo melhor administração e mais lucros, invariavelmente à custa de demissões.
Todos os administradores, mesmo os mais pobrezinhos, defendem as lucrativas taxas de performance porque, desta forma, ficam “alinhados com os interesses dos investidores”. No entanto, estas taxas, que fazem dos fundos de hedge aquilo que o capitalismo tem de mais selvagem, são criticadas por gente como Warren Buffet, o segundo homem mais rico do mundo, que as considera um empurrão para os altos riscos, em detrimento de uma estratégia de longo prazo.
Mas o que fazem estes administradores com tanto dinheiro no bolso? Segundo revelou recentemente o The Wall Street Journal, o patrimônio médio pessoal dos gestores é de US$ 61 milhões. A maioria é formada por homens com menos dos 55 anos (é um mercado onde mulher quase não entra). Preferencialmente, gastam boa parte do dinheiro em obras de arte, seguidas de iates, jóias, hotéis e resortes, relógios, roupas, spas, produtos eletrônicos, amigos e, por que não, vinhos da melhor qualidade.
Afinal, como se diz, a vida é muito curta para se tomar vinho ruim.

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