Arquivo da categoria: Vida Americana

Vida Americana é um artigo semanal sobre a vida empresarial nos Estados Unidos, escrito de Seattle, na Costa Oeste norte-americana, cidade-sede da Boeing, Microsoft, Amazon e Starbucks, e cujo empresários estão se aproximando cada vez mais do Brasil a fim de diversificar sua pauta de exportações/importações. Aqui você ouve tendências, idéias inovadoras, start-ups de sucesso, comportamento, celebridades empresariais, fatos pitorescos e diplomacia empresarial. Vida Americana é uma das colunas mais lidas da Gazeta Mercantil, atingindo cerca de 400 mil leitores – a elite econômico-financeira brasileira – diariamente.

De caso com a máfia

Seattle – Após assistir nas últimas semanas aos 86 episódios dos The Sopranos, da HBO, considerado o melhor seriado de todos os tempos da TV norte-americana, e também o que mais faturou, e ficar terrificado com o estilo de liderança do chefão Tony Soprano, dá vontade de jogar no lixo idéias holísticas, congruentes, participativas e outros modismos inventados pelos consultores em administração. O estilo “escreveu-não-leu-é-porrada-mesmo” de Tony, que faz análise e tem problemas com a mãe, mesmo depois dela ter morrido, obviamente tem seus exageros, como assassinatos e extorsões, mas é o que se vê, mutatis mutandis, no dia-a-dia das empresas nos Estados Unidos que freqüentam as primeiras posições da Fortune 500.

O Soprano da América Corporativa é uma espécie de cowboy que, em tempos de crise (ou seja, sempre), corta a emenda do feriado, suspende o cafezinho e liga para o sub-chefe domingo de manhã para saber o que ele está achando das coisas. Fala pouco, não é amigo, aparece em horas incertas, não gosta de responder (e sim perguntar), não reage no calor dos acontecimentos e presta atenção a tudo que ouve. Sorrisos esparsos, abre o saco de pancadas de uma só vez, e dá a mão depois que o subordinado já roeu todas as unhas. É astuto, sortudo, charmoso, de bem com a vida, aceita ouvir desaforos sem estourar os miolos e parece ser teleguiado por um sentido de missão, do tipo “não sabia que era impossível, portanto fui lá e fiz”. Leia mais…

Os gringos estão ficando verdes

usa_verde.jpgSeattle – Ao longo da sua existência, os Estados Unidos caíram, levantaram e sacudiram a poeira dezenas de vezes, transformando-se não só no país do futuro, mas no país que inventa o futuro. Agora que a gasolina beira os quatro dólares, o que faz o americano tirar do bolso às vezes mais de 100 dólares para encher o tanque, a nação responsável por quase metade do PIB da Terra – e por isto mesmo a maior poluidora do mundo – mobiliza-se para reduzir o seu rastro de destruição na natureza.

A edição do The New York Times Magazine da semana passada, chamada de Low Carbon Catalog, numa alusão às dietas de baixa caloria, traz quase uma centena de lucrativas inovações verdes made-in-America. A melhor delas? Três empresas californianas que estão alugando caros e super-eficientes (US$ 40 mil em média por casa) painéis solares que podem ser instalados nas residências sem a ajuda de técnicos. O modelo de negócio é comparado ao que aconteceu com o setor de telefones celulares, cujos proprietários hoje “não precisam pagar 10 mil dólares pelo aparelho, ou mesmo construir, manter e reparar a rede de telecomunicações”. Continue lendo Os gringos estão ficando verdes

Voando com Richard Brason

richard_branson.jpgSan Francisco – Sou um dos felizes passageiros (poltrona 23B) da mais nova (e surpreendente) companhia aérea norte-americana, a Virgin America, que acaba de inaugurar o vôo entre Seattle e San Francisco, sobrevoando a maravilhosa Costa Oeste dos Estados Unidos. Seu dono, o bilionário britânico Richard Branson, um louco que semana passada deu entrevista sentado na privada de sua mansão numa ilha do Pacífico, não estava à bordo – mas tudo aqui em cima, como de resto em todos os seus negócios, faz lembrar o homem que, por onde passou, revolucionou o mundo empresarial.

Para começar, Sir Branson, hoje o 236º homem mais rico do mundo, com quase US$ 7,9 bilhões no bolso, criou uma linha aérea num país onde é vetada aos estrangeiros a propriedade de linhas aéreas. Enfrentou reguladores, bateu de frente com os sindicatos, defendeu-se do lobby das concorrentes, criou uma intrincada estrutura societária, ganhou o apoio do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, e… pimba: eis que a Virgin America está competindo com a Delta, America, Jet Blue, United e está ganhando. Por quê? A razão é simples: com o capitalismo de cabeça para baixo, não existem mais monstros sagrados. “Qualquer um pode colocar um avião no ar”, reflete Samantha, a aeromoça da Virgin, “o que faz a diferença é oferecer um serviço melhor, mais bonito e barato”. Continue lendo Voando com Richard Brason

Ser rico, aqui, está ficando constrangedor

jamie_johnson.jpgSeattle – Estréia esta semana nos Estados Unidos o segundo – e mais polêmico ainda – documentário de Jamie Johnson, 29 anos, o premiado herdeiro da Johnson & Johnson que está fazendo da sua vida uma luta para denunciar a única coisa que tanto os ricos quanto os pobres gostam: dinheiro.
“The One Percent”, apresentado sob aplausos no TriBeCa Film Festival, é um documentário de 80 minutos sobre os desafios que os Estados Unidos enfrentam ao ter apenas um por cento da sua população controlando a metade da riqueza nacional.
O filme apresenta o comentarista Robert Reich, Bill Gates Sr., Milton Friedman (que acusou Johnson de socialista e abandonou as filmagens) e alguns bilionários, contrabalanceando com cenas que mostram efeito do furacão Katrina sobre a população pobre do Sul dos Estados Unidos. Continue lendo Ser rico, aqui, está ficando constrangedor

O Robin Hood de Nova York

carl_icahn.jpgLos Angeles – Se você anda desanimado com a vida, pensando que não nasceu para o mundo dos negócios ou para ficar rico, assista ao bilionário norte-americano Carl Icahn sendo entrevistado por Lesley Stahl no programa 60 Minutes, da CBS, (www.cbsnews.com/stories/2008/03/06/60minutes/main3915473.shtml), agora já disponível na internet.
O judeu nova-iorquino, hoje considerado o 46º homem mais rico do mundo, com US$ 14 bilhões no bolso (e nas bolsas) e um estonteante escritório com vista para o Central Park, em Nova York, está se tornando um Robin Hood dos pequenos acionistas insatisfeitos com as empresas nas quais depositaram suas poupanças.
Icahn vai lá, compra a empresa, ou parte dela, faz o pessoal levantar o traseiro da cadeira, acordar cedo, dormir tarde e, melhor ainda, gerar lucros. Depois, vende e embolsa a diferença. Na venda da BEA para a Oracle, levou US$ 300 milhões. Para os acionistas, US$ 3 bilhões.

“Vou ser direto: estou aqui para ganhar dinheiro – é o que eu gosto de fazer”, confessa ele, sem mudar o semblante, ao 60 Minutes. Obsessivo, viciado em trabalho, cabelo tapando a careca, Icahn tem uma equipe de 40 pessoas que, para não dizer o tempo todo, passam boa parte do dia e da noite pensando em empresas-alvo para seus negócios. Continue lendo O Robin Hood de Nova York

Um homem, muitas esposas

joseph_smith_jr.jpgSeattle – Espremidos entre a crise econômica e as eleições presidenciais, os americanos estão vidrados num documentário de quatro horas produzido pela PBS, a TV pública, sobre os Mórmons. Suave, elegante, imparcial e extremamente bem feito, o programa conta a história da religião fundada pelo profeta Joseph Smith Jr. em 1830 numa fazenda de Nova York, mostra os trabalho dos missionários (aqueles rapazes de gravata em camisas de mangas curtas que vagam pelas cidades), dá voz aos dissidentes, lembra seu poderio político (como, por exemplo, o ex-candidato presidencial republicano Mitt Romney), mas capta a atenção do público pela poligamia, justamente o assunto pelo qual eles não querem ser conhecidos – e nem lembrados.

Os adeptos da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, a religião que mais cresce no mundo, hoje com 13 milhões de seguidores, abdicaram da poligamia – ter duas, três, ou sabe-se lá quantas esposas – em troca da liberdade de credo já em 1890, quase 60 anos depois da sua fundação. Quando a praticaram, seguindo os preceitos de Joseph Smith Jr., foram mortos, humilhados, perseguidos, roubados, presos e tiveram que fazer uma façanha de proporções literalmente bíblicas: atravessar em carroças, enfrentando a neve, a fome e os índios, os milhares de quilômetros que separam Illinois, à beira dos Grandes Lagos, até a desértica Utah, no Oeste americano, onde fundaram Salt Lake City. Desde lá, seus dirigentes engolfam-se numa monótona panfletagem de relações públicas para separar o joio do trigo, no caso, a poligamia do mormonismo, sem sucesso. Continue lendo Um homem, muitas esposas

Rudy, a próxima vítima

rudy.jpgSeattle– Amanhã, quando forem abertas as urnas das eleições primárias da Flórida – um estado que até hoje está com a barra suja por ter dado a vitória a George W. Bush há sete anos – o ex-prefeito de Nova York Rudolph William Louis “Rudy” Giuliani estará com o coração na mão. O ex-manda-chuva da maior cidade americana, que montou a estratégia para tornar-se o candidato republicano em 2008 em cima das cinzas do ataque terrorista de 11 de setembro, jogou boa parte do dinheiro de campanha, em torno de 47 milhões de dólares, no estado favorito dos brasileiros, onde floresce Miami, a capital da América Latina.

Por que Guiliani, um ex-promotor público sobrevivente a um câncer de próstata e especializado em prender mafiosos na fria Nova York, deixou de investir em Iowa, New Hampshire ou na Carolina do Sul para ganhar os votos republicanos num estado tropical, sulista e cheio de imigrantes ilegais? Por uma simples razão: a Flórida é onde boa parte dos endinheirados nova-iorquinos vai se aposentar. Aos 64 anos, e sempre martelando a
necessidade de ter um líder experiente para enfrentar crises, o que soa como mel no mamão para os idosos, Giuliani acredita que irá fazer sucesso lá. Ledo engano. As últimas pesquisas lhe dão um humilde terceiro lugar nas preferências dos republicanos na Flórida, atrás de John Mccain, o senador por Arizona torturado durante cinco anos no Vietnã, e Mitt Romney, o empresário mórmon que salvou as Olimpíadas de Salt Lake City do fracasso e tem 250 milhões de dólares no bolso. Continue lendo Rudy, a próxima vítima

Homem não chora. Mulher pode?

hillary_clinton.jpgSeattle– Depois de levar a primeira surra de sua vida, chegando em terceiro lugar no caucus de Iowa, a senadora Hillary Rodham Clinton, 60 anos, reuniu outras madames num café em New Hampshire e, entre cappuccinos e croissants, assustou a audiência quando, com voz embargada, quase chorou. De mulher para mulher, e de frente para as câmeras, desabou diante do cansaço, da pressão e da solidão da agitada campanha presidencial norte-americana.
Não deu outra. A esposa de Bill Clinton, favorita nacionalmente, mas ainda rejeitada por metade dos americanos, mostrou seu lado mulher (coisa que se recusava a fazer na campanha) e, assim, reverteu o quadro, qanhando de virada as primárias do Estado, à frente dos outros democratas Barack Obama e John Edwards. O choro ganhou um editorial no The New York Times assinado pela feminista Gloria Steinem.
Até hoje, depois de mais de dois séculos de independência, nenhuma mulher chegou perto de ocupar o Salão Oval da Casa Branca. A cadeira de presidente, como todos sabem, é quente: dá dores de cabeça, noites mal dormidas, pressões de todos os lados e muitas rugas. Repare nas fotos dos presidentes no decorrer dos mandatos. O tempo não faz bem a eles. Continue lendo Homem não chora. Mulher pode?

Greenspan: o livro do ano

alan_greenspan.jpgSeattle– A correspondente da rede NBC em Washington, Andrea Mitchell, só percebeu que o sisudo Alan Greenspan estava lhe pedindo em casamento na terceira tentativa. O então presidente do Federal Reserve, o Banco Central norte-americano, o homem que com apenas uma ferramenta – a taxa de juros – governou os Estados Unidos (e por tabela o mundo) durante duas décadas, falava por hipérboles, metáforas e analogias difíceis de decifrar, um hábito dos tempos em que dava recados aos mercados sem deixá-los em pânico ou, como gostava de comparar, mandava cortar a bebida alcoólica quando a festa começava a esquentar.

Andrea se casou com Alan e foram felizes para sempre. A esposa está sempre presente em sua autobiografia, um catatau de 520 páginas chamado “A Era da Turbulência – Aventuras Em Um Novo Mundo –, que pode ser considerado o livro do ano de 2007 por uma razão: é um dos melhores livros de história escritos até hoje. Sob a batuta deste maestro, que com uma incrível capacidade de sobrevivência atravessou os governos Ford, Carter, Reagan, Bush, Clinton e Bush filho, o mundo assistiu a choques de petróleo, à queda do Muro de Berlim, ao fenômeno da Internet, a sucessivas falências de países (inclusive o Brasil) e, finalmente, ao ataque terrorista aos Estados Unidos em Setembro de 2001. Continue lendo Greenspan: o livro do ano

Nem sexo, nem drogas, só rock and roll

mike_huckabee.jpgLos Angeles– O pastor batista Mike Huckabee, 51 anos, um “ex-viciado em comida” que perdeu 50 quilos em 60 dias e virou um menestrel das dietas, poderá ser o próximo presidente dos Estados Unidos. Ex-governador do Arkansas que nasceu na mesma cidade de Bill Clinton, Hope, Huckabee teve uma ascensão meteórica nas pesquisas de opinião nos últimos dias, batendo todos os outros candidatos à indicação do Partido Republicano para concorrer à presidência.

Os jornais atribuem a virada à religiosidade de Huckabee, o que cai como uma luva nos eleitores que, em matéria de política, preferem à Bíblia à Constituição. O homem é contra o aborto, o casamento homossexual e pesquisas com embriões humanos, embora não repita estes mantras da direita nos discursos e entrevistas. Ao contrário, ele parece um livro de auto-ajuda que se abre a cada questionamento dos eleitores ou dos jornalistas. Olhos nos olhos, voz firme, postura de vencedor, Huckabee prefere falar, por exemplo, do direito do cidadão em portar armas.

– A violência diminui quando o criminoso sabe que vai encontrar na próxima esquina um cidadão armado disposto a matá-lo, caso seja necessário, disparou ele outro dia. Continue lendo Nem sexo, nem drogas, só rock and roll